quinta-feira, 21 de novembro de 2019   
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:: Valeriano Manso - Contemporâneo de Tiradentes
 
Um Rosto na Inconfidência
* Maria Luiza Marinho de Magalhães (1938 - 1994)
** Thales Ribeiro de Magalhães (Diretor do Museu "Salles Cunha" - ABORJ)

Introdução:

1 - Século XVIII
Este aurífero século - século do desbravamento e interiorização do homem europeu nas ricas terras brasileiras - abrange um período da nossa História de grande evolução social, política e econômica.

2 - Vila Rica
Vila Rica, neste século, havia se transformado na maior cidade do Brasil, graças a grande extração de ouro de suas entranhas.

A explosão cultural foi uma seqüência natural no momento que os abastados mineradores passaram custear a formação de seus filhos nas Universidades européias, principalmente Coimbra. A fermentação cultural foi intensa. O pensamento iluminista, os direitos dos homens, as idéias liberais floresceram na mentalidade de muitos brasileiros.

No final do século XVIII, era contagiante o descontentamento da população de Vila Rica. Seu Governador era satirizado nas "Cartas Chilenas". "Fanfarrão Minesio, descrito como uma figura grotesca, possuidor de atitudes inconstantes, arbitrário nas decisões, envolvido em pequenas piratarias"; (1) agindo em função do despotismo, cegamente cumpria as ordens absurdas, vindas do Conselho Ultramarino.

Em 1788, e nomeado um novo Governador para a Capitania de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, que, pela sua formação, e caracterizado um iluminista.

A exploração e a extorsão das riquezas do Brasil por Portugal continuavam. Criavam dia a dia a revolta interior da população de Vila Rica. Nas próprias "Instruções" que o Ministro Ultramarino dera ao Visconde de Barbacena, orientando-o, mostrava conhecer as dificuldades que a capitania enfrentava. Não percebia que a escassez das jazidas auríferas exigia uma diversificação da economia. Preferiu a decretação da Derrama.

O comércio brasileiro evidenciava seu descontentamento com reação crítica contra os privilégios da nobreza e as restrições mercantilistas, como proibição de fábricas de tecidos , de manufaturas de ouro no Brasil (Alvará de 5/01 de 1785 de D. Maria I).

"Em 1774 e 1788, cada mineiro, ao nascer já tinha uma dívida que não poderia pagar. Hoje isto acontece com a nossa atual Dívida Externa", examina apropriadamente Celso Brant. (2)

Critica-se também o inócuo sistema social da época: uma sociedade estratificada em que se exaltava o preconceito de casta, um servilismo autocrático, a sua existência do poder de corrupção daqueles que podiam comprar sua liberdade com alguns quilos de ouro, casos de suborno envolvendo o próprio Governador.

3 - Os Inconfidentes
Por esta época, em Vila Rica, reuniram-se homens que se destacaram por suas efervescentes inteligências, que trouxeram novas luzes das Universidades européias, que desenvolveram idéias avançadas, que levaram a população a debater problemas referentes a legitimidade do poder "considerando que a finalidade do governo e atender o Bem Comum" (2). Certos também estavam que um governo improdutivo, tirânico, corrupto devia ser derrubado, porque o Estado deve estar a serviço da coletividade. Com este modo de pensar, construíram o projeto político da Inconfidência Mineira.

O grande momento dos inconfidentes foi perceber que a Colônia não passava de um "robô" programado segundo os interesses e diretrizes de uma outra nação (2).

A História que nos é contada, que incrimina uns poucos, deturpada segundo o interesse da classe dominante vencedora; o desenvolver da farsa judiciária que sempre protegeu, privilegiou alguns; fez com que o tratamento, a muitos dos inconfidentes, fosse diferenciado, de acordo com seu poder econômico ou relação com o poder político.

Todos conhecemos bem os inconfidentes mais evidenciados: o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tomás Antônio Gonzaga, Claudio Manoel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto e alguns clérigos. E o que dizer dos outros não incluídos na devassa?

Após alguns momentos da reflexão, não nos passa pela mente que poucos indivíduos tivessem a pretensão de fazer uma revolução. Lendo várias obras, inclusive os "Autos da Devassa" e a opinião de vários estudiosos do assunto, a idéia de fazer a revolução estava embutida, almejada e espalhada por todas as camadas da sociedade, "Não apenas o povo a aprovava; apoiavam-na os maiores banqueiros de Minas, os mais ricos fazendeiros, as figuras mais representativas da Igreja e da magistratura, grandes e luminosos poetas e artistas, o Comandante do Regimento de Cavalaria Paga, os portugueses residentes nas Minas. Mesmo Visconde de Barbacena não deixava de vê-la com simpatia (2).

4 - Capitão Valeriano Manso da Costa Reis
Evocar a memória do país é um processo que devemos cultivar e incentivar. Os estudos factuais da personalidade, mesmo modestas, são interessantes para caracterizar a História de uma época.

Valeriano Manso era natural de Vila Rica, casado com Ana Ricarda Marcelina de Seixas, em 21/11/1788, irmã da célebre Marília de Dirceu, isto é, Maria Dorotéia Joaquim de Seixas, noiva do Inconfidente Tomás Antônio Gonzaga.

Valeriano e seus pais, o jurista Dr. Manoel Manso da Costa Reis e Clara Maria Negreiros e Castro, viveram em Vila Rica no período histórico denominado Brasil-Colônia, durante o ciclo da mineração. Conviveram com sensíveis personalidades que exerceram funções sociais, econômicas, políticas e culturais de alto relevo, brasileiros, em cujas biografias, deparamos características da época que se traduzem no apego a família, a pátria e as tradições, de hábitos patriarcais, "num profundo espírito conservador e culto exagerado ao princípio da autoridade" (3).

São seus contemporâneos as ilustres famílias: Galvão de São Martinho, Farias Lobato, Sayão, Negreiros, Monteiro de Barros, etc., cujos descendentes vão se entrelaçar com casamentos e grandes proles. Exerceram importantes funções no regime monárquico, sendo alguns agraciados com títulos de Visconde e Barões. Mais tarde, tornaram-se ativos e dedicados servidores das novas instituições republicanas, indivíduos esses que ocuparam as mais variadas profissões, tanto nos grandes centros quanto na zona rural.

Capitão Valeriano foi contemporâneo de Tiradentes que, nos Autos de Devassa, num desabafo incontido de revolta, cita o seu nome e de outros militares: "que tendo projectado o dito levante, o que fizera desesperado, por ter sido muito exato no serviço, e que achando-o para as diligências mais arriscadas, para as promoções, e argumentos de postos achavam a outros, que só podiam campar por mais bonitos ou por terem comadres, que servissem de empenho, porque o seu Furriel esta feito Tenente. Valeriano Manso, que foi soldado da companhia dele", etc.

Orestes Rosalia, no seu romance sobre a Inconfidência Mineira, nos revela, ao lado dos acontecimentos políticos, o desenrolar amoroso entre Tomás Antônio Gonzaga e Maria Dorotéia Joaquina de Seixas e em alguns parágrafos relata o romance Valeriano e Ana Ricarda, freqüentando bailes, saraus, etc. (5).

Consta nos Autos da Devassa (1) "O Tenente Valeriano Manso da Costa Reis, casado com uma irmã de Marília (D. Maria Dorotéia Joaquina de Seixas), fora afilhado de casamento do Visconde de Barbacena em 1788.

5 - Descendentes de Valeriano Manso
A descendência de Valeriano Manso mostra dois mineiros ilustres: Francisco Assis Manso da Costa Reis (5) e um neto: Antonio Romualdo Monteiro manso (7).

Francisco Assis nasceu a 4 de fevereiro de 1803, no arraial de Sete Lagoas, freguesia de Curral Del Rey (atual Belo Horizonte).

Era Alferes de Cavalaria. A 24 de maio de 1842 foi nomeado como subdelegado do distrito de Madre de Deus do Angu (atual Angustura - MG).

Foi vereador da Câmara Municipal de São João Nepouceno, coronel de Legião da Guarda Nacional e Comandante Superior.

Faleceu sem descendentes em agosto de 1871, estando sepultado no cemitério de Angustura, distrito de Além Paraíba, Minas Gerais.

Hoje o Patrono da Polícia Militar de Minas Gerais, por ter sido o seu primeiro Comandante, quando esta era ainda Guarda Nacional.

Um quadro para o qual pousou, bem conservado, está localizado na sede da Fazenda da Conceição, em Angustura, construída por ele em 1957.

Antônio Romualdo Monteiro Manso era filho do Tenente-Coronel José Maria Manso da Costa Reis, irmão de Francisco de Assis, citando anteriormente.

Formou-se em medicina, mas seu passado político esta restrito ao fato de, substituindo o Barão de Leopoldina, na Câmara dos Deputados, já que este fora nomeado Senador Vitalício do Império, no momento da posse recusou-se a jurar fidelidade ao Imperador. Por causa disto, o regimento foi modificado, não sendo mais obrigatório aos que se sentissem impedidos por questões religiosas ou políticas.

 Jornalista Responsável: Cíntia de Assis | Desenvolvimento: SR Informática | Realização: ABO-RJ Siga-nos no Facebook Facebook