sexta-feira, 22 de novembro de 2019   
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:: Joaquim José da Silva Xavier - O dentista
 
Não são muitas as opiniões sobre Tiradentes e a sua arte ou prenda, como ele próprio disse. Na verdade, todas derivam de suas declarações e de outras pessoas, nos Autos de Devassa, e de uma ou outra personalidade histórica. A 2 de maio de 1789, na Fortaleza da Ilha das Cobras, deu sua origem a seus inquiridores e respondeu que viera "a esta cidade para a informação de três requerimentos, um a respeito de umas águas, outro de um trapiche e outro sobre embarque de gados e que não tinha nesta cidade pessoas de particular amizade, porque se as tivesse não estaria em casas alugadas; porém que conhecia muita gente em razão da prenda de por e tirar dentes".

Salles Cunha 11.12 e outros1.2 citam Frei Raimundo Penaforte como sendo o último confessor de Tiradentes, que declarou que o herói "Tirava com efeito dentes com a mais sutil ligeireza e ornava a boca de novos dentes, feitos por ele mesmo que pareciam naturais". Hercules Pinto1, faz uma análise da atuação de Tiradentes com dentista, citando as possibilidades existentes em sua época para a colocação de dentes artificiais.

Chama a atenção para o seu licenciamento e para os impostos pagos para que pudesse trabalhar na profissão. Diz ainda que não há descrição na literatura dos instrumentos apreendidos com o alferes.

Jardim (3) diz "não pairar dúvidas sobre o talento de Tiradentes com dentista". Faz menção a quatro livros apreendidos com suas coisas, sem saber o seu conteúdo. Cita a sua atuação como "curativo", uma espécie de curandeirismo usando plantas. Era primo de Frei Veloso, o que pode explicar o seu conhecimento no assunto. Tratou ainda de Possidonio Carneiro, que era leproso, e Antonio Ribeiro de Avelar, que era seu cliente. O mesmo autor (3), revela que, em sua casa de Vila Rica apareceram, entre seus bens sequestrados, "5 pratos de pó de pedra branco, 2 frascos de vidro grandes, 2 garrafas finas pequenas, 1 peneira de seda e instrumental de dentista".

Dentro do que existe nas citações, pode-se concluir que:
As informações do seu trabalho odontológico são tratadas como suposições.

O pó branco pode ser gesso (3), para confecção de modelos, técnica descrita por Phillip Pfaff, em 1756 (22), embora Saizar (11), faça restrições à descrição da técnica pelo autor.

É de se notar que, anos antes, Matias Purman já usara a cera de abelhas para tomada de impressões, 22. Como modelo de gesso é consequência da tomada de moldes, é bem provável que o experiente Tiradentes tivesse aplicado a técnica. Deve-se salientar que José Álvarez Maciel havia chegado da França a julho de 1788 e poderia ter trazido a novidade através do livro de Pfaff, publicado na Alemanha, em 1756. Existiam na época duas edições do livro de Pierre Fauchard "Le Chirurgie Dentiste" (1728 a 1746), obra que dificilmente escaparia de qualquer dentista do mundo inteiro, tal o seu impacto. Não se deve esquecer que foram apreendidos quatro livros nas coisas de Tiradentes, que poderiam conter os dois volumes da obra magnífica de Fauchard, que são de tamanho pequeno (um exemplar está na biblioteca da ABORJ).

Segundo Brans (13), há fortes indícios que o próprio alferes esteve na Europa, em 1787.

Os instrumentos usados por Tiradentes
O instrumental usado por Tiradentes, pertence à reserva técnica do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, e foi fotografado para o Jornal da ABORJ em 19 de fevereiro de 1992, pelo seu diretor, CD J. Santos Lima Jr., para a edição especial comemorativa do Bi-centenário da Morte do Patrono da Odontologia. São eles:

Fórceps - Tomaram a forma comum de alicate. Um cabo é reto e outro é curvo, assim como os mordentes ou ponta ativa, sendo o curvo ligeiramente mais comprido, obedecendo ao desenho apresentado por Guillemeau 2 e Fauchard16. As peças são de ferro, com articulação de encaixe. Um deles não permite mais movimento. Estão em bom estado de conservação e demonstram que foram muito usados.

Chaves - São muitas as chaves. Não há movimento entre a empenhadura ou mango, tal como o saca-rolhas. A ponta ativa é virada em ângulo reto, perpendicular à empenhadura, o que não caracteriza uma chave de Garengeot; é semelhante. O cabo de madeira é arredondado e possui anéis em baixo relevo, com enfeites.

Semelhante a um "pelicano", instrumento desenvolvido por Pare - 23 e aperfeiçoado por Walter Ryff22 no final de 1.500, a chave possui uma articulação a pino central entre o Cabo, e o pino (ponta ativa) permite que esta tome posições diferentes, facilitando o trabalho em cada quadrante da boca. A ponta possui um entalhe central, para uma melhor adaptação ao colo do dente no ato da extração.

Espátula - Completa o conjunto uma espátula laminada fina, com ponta ativa dupla, formando em triângulo de direção contrária entre cada ponta. Nota-se que isso permite um acesso limitado ao interior de cavidades dentárias, mas poderia ter sido usado para colocação de medicamentos ou afastador de gengiva inserida para adaptação do fórceps. Na época já eram conhecidos os óleos de canela e de cravo. Já se desenvolvia também a colocação de chumbo e estanho como materiais obturadores16. Quanto aos dentes artificiais, Fauchard16 ensina uma maneira de fazêlos a partir de osso de perna de boi, indicando também técnica para esmaltar ouro.

É bem possível que nem conceitos religiosos poderiam impedir que os habilidosos usassem dentes extraídos, devidamente preparados, como substitutos dos naturais. A separação da coroa de suas raízes e a fixação dessa coroa a raízes remanescente na boca, através de pinos, é um trabalho muito mais fácil que o cinzelamento de dentes de hipopótamo ou marfim, como se propunha naqueles anos. Parece difícil terem existido dentes daquele animal e encontrados com facilidade em Vila Rica.

 Jornalista Responsável: Cíntia de Assis | Desenvolvimento: SR Informática | Realização: ABO-RJ Siga-nos no Facebook Facebook